O telefone toca de madrugada. Seu pai, que ontem estava lúcido assistindo TV e conversando, acordou agressivo, não reconhece a própria casa, diz que está vendo pessoas no quarto e não sabe o seu nome. O pânico se instaura. A família corre para o pronto-socorro com uma certeza aterrorizante: “O Alzheimer chegou de vez”.
Como geriatra, eu preciso te tranquilizar e te alertar: O Alzheimer não acontece do dia para a noite. A confusão mental súbita tem outro nome. Chama-se Delirium.
Confundir Delirium com Demência é o erro que faz muitos idosos serem internados em clínicas psiquiátricas ou dopados com antipsicóticos desnecessariamente, quando, na verdade, o que eles precisam é de um antibiótico ou de um copo de água.
A Demência (como o Alzheimer) é um apagamento lento, progressivo e irreversível. O Delirium é uma falência aguda e temporária do cérebro frente a uma agressão física no corpo. O cérebro do idoso é extremamente sensível; quando algo sai do eixo no organismo, o primeiro órgão a gritar é a mente.
Os principais gatilhos do Delirium são banais para um jovem, mas devastadores para um idoso:
Infecção Urinária ou Pneumonia: O idoso quase nunca tem febre. O primeiro sintoma de infecção é a alucinação.
Desidratação Silenciosa: O idoso perde o reflexo da sede. Um dia de calor sem beber água suficiente “frita” os neurônios temporariamente.
Ajuste Errado de Remédio: Aquela dose nova do remédio para dormir ou para dor nas costas.
Se você levar o idoso em Delirium para uma emergência lotada, sem o acompanhamento do geriatra, o médico plantonista (que não conhece o histórico do paciente) verá apenas um idoso agitado. A conduta padrão será sedá-lo. A sedação piora o quadro, mascara a infecção que causou a confusão e acelera o declínio físico.
A nossa conduta não é silenciar o cérebro, é procurar o incêndio no corpo. Tratada a infecção, ajustada a hidratação ou retirado o remédio tóxico, a mente do idoso “reinicia” e a lucidez retorna na imensa maioria dos casos.
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